A energia também deve ser inteligente, não só os sistemas! 

Matheus Farias
Out 15, 2025

A energia também deve ser inteligente

A "energia inteligente" propõe otimizar o consumo de energia em sistemas de IA, equilibrando desempenho e impacto ambiental


Os avanços no desempenho computacional ao longo do século XX pautaram-se, majoritariamente, na miniaturização dos componentes dos computadores, uma tendência formalizada em 1975 pelo cofundador da Intel, Gordon Moore. Sua previsão dizia que o número de transistores nos chips de computador dobraria aproximadamente a cada dois anos, conhecida como a Lei de Moore [1]. No entanto, o ritmo da miniaturização dos semicondutores está desacelerando à medida que os limites teóricos dessa abordagem estão sendo alcançados—não há muito mais espaço "lá embaixo." Ainda existem caminhos para melhorar o desempenho da computação, especialmente no "topo" da pilha da computação: software, algoritmos e arquiteturas de hardware [2].

A nova era da arquitetura de computadores concentra-se em criar paradigmas combinando software e hardware para otimizar aplicações em domínios específicos [3]. A inteligência artificial (IA) é um exemplo claro desse enfoque, pois sua natureza computacional exige soluções especializadas, como a otimização de operações de multiplicação de matrizes. Essa abordagem de co-design visa manter a acurácia de modelos robustos enquanto minimiza o seu consumo energético: estima-se que o treinamento de um grande modelo de IA pode consumir até 552 toneladas de CO₂ [4], equivalente às emissões de dez carros ao longo de sua vida útil (ver Tabela 1). Diante dessa realidade, a eficiência energética torna-se essencial para reduzir custos operacionais e impactos ambientais. Avançar na direção de "energia inteligente" significa desenvolver tecnologias que priorizem tanto o desempenho quanto a sustentabilidade, assegurando que os benefícios da IA sejam acessíveis e sustentáveis para todas as esferas da sociedade. 

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Tabela 1. Tabela comparando modelos de inteligência artificial em termos de quantidade de parâmetros, tempo de treinamento, consumo energético e consumo bruto equivalente de CO2 em toneladas (tCO2e). Estimativas feitas em [4].

A explosão da inteligência artificial na última década foi impulsionada, em grande parte, pela utilização de GPUs (Unidades de Processamento Gráfico) e, mais recentemente, TPUs (Unidades de Processamento de Tensores). Originalmente desenvolvidas para renderização de gráficos em jogos, as GPUs mostraram-se extremamente eficientes em processar operações paralelas, como as multiplicações de matrizes necessárias para o treinamento de redes neurais profundas. Porém, essa eficiência veio com um custo de consumo energético elevado. Como resposta, surgiram as TPUs, projetadas especificamente para o processamento de IA, oferecendo maior eficiência energética em relação às GPUs, mas ainda consumindo grandes quantidades de energia para modelos de grande escala [10]. 

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Figura 1. Representação futurística de um datacenter gerado pela inteligência artificial ChatGPT do OpenAI.

Apesar dos avanços no design de hardware, o consumo energético dos datacenters (ver Figura 1), onde os sistemas de IA são treinados e implementados, continua crescendo rapidamente. Esses centros, que abrigam milhares de GPUs e TPUs, já representam cerca de 1% do consumo global de eletricidade, com previsões de aumento significativo por conta do crescimento da demanda por IA [11, 12]. A energia consumida por esses dispositivos resulta em um aumento da necessidade de infraestrutura de refrigeração e de fontes de energia robustas, ampliando o impacto ambiental e econômico do desenvolvimento e uso de modelos de IA.

A energia inteligente propõe uma nova forma de pensar sobre o consumo de energia na era da inteligência artificial. Trata-se de um conceito que vai além da otimização dos algoritmos, estendendo-se ao uso consciente e eficiente da energia durante o treinamento e a operação dos sistemas de IA. Em vez de focar exclusivamente em aumentar a precisão dos modelos, a energia inteligente destaca a importância de equilibrar o desempenho com o impacto energético. Isso implica em desenvolver soluções que considerem o consumo energético como um recurso valioso, gerando uma espécie de "crédito de energia" para cada algoritmo.

Historicamente, focava-se em maximizar a precisão dos modelos de IA, sem a devida atenção à quantidade de energia consumida no processo. Entretanto, à medida que os modelos se tornam mais complexos e exigentes em termos computacionais, torna-se crucial repensar esse paradigma. A energia inteligente busca redefinir o sucesso de um algoritmo, considerando não apenas sua eficácia, mas também sua sustentabilidade energética.

A eficiência energética em inteligência artificial pode ser alcançada por meio de diversas tecnologias e abordagens de software. algoritmos otimizados para energia são projetados para reduzir o consumo energético sem comprometer a precisão. Técnicas como pruning eliminam conexões desnecessárias em redes neurais, diminuindo a quantidade de cálculos e, consequentemente, o consumo de energia [13]. Quantization reduz a complexidade ao utilizar representações numéricas menores, tornando os cálculos mais rápidos e eficientes [14]. Knowledge distillation permite treinar um modelo menor e mais eficiente, baseado em um modelo maior, mantendo o desempenho enquanto reduz significativamente os custos computacionais e energéticos [15, 16]. Além disso, neural architecture search automatiza a busca por arquiteturas de redes neurais que sejam tanto precisas quanto energeticamente eficientes, conhecidas na literatura como os bilhetes premiados. Essa busca identifica as melhores configurações de maneira otimizada, sem intervenção manual [17, 18].

O desenvolvimento de hardware verde também é fundamental para alcançar essa eficiência. Uma das novas arquiteturas mais promissoras é a computação na memória, que integra o processamento diretamente com o armazenamento de dados, reduzindo a necessidade de movimentar dados entre unidades de processamento e memória [19]. Como a movimentação de dados é a operação que mais consome energia em sistemas digitais tradicionais, essa abordagem pode reduzir drasticamente o consumo energético [20]. Já a computação quântica oferece a possibilidade de processar informações de forma exponencialmente mais rápida em problemas complexos, como a otimização de redes neurais. Diferente de computadores clássicos, que processam dados de forma sequencial, os computadores quânticos podem realizar diversas operações em paralelo, o que diminui significativamente o tempo de processamento e o consumo de energia [21].

Os benefícios socioeconômicos são significativos. A eficiência energética reduz os custos operacionais, tornando a tecnologia mais acessível para pequenas e médias empresas e promovendo a democratização do acesso à IA no Brasil. Isso estimula a inovação e a competitividade no mercado nacional. Além disso, o menor consumo de energia contribui para a sustentabilidade ambiental, alinhando-se com os objetivos globais de redução de emissões. A energia inteligente não só impulsiona o desenvolvimento tecnológico, mas também promove um impacto positivo na sociedade e na economia brasileira, criando oportunidades e melhorando a qualidade de vida.

Para posicionar o Brasil como líder em eficiência energética na inteligência artificial, é essencial estabelecer diretrizes nacionais que promovam a pesquisa e o desenvolvimento focados nessa área. Isso inclui a criação de programas governamentais que incentivem universidades e institutos de pesquisa a explorar soluções inovadoras em algoritmos e hardware energeticamente eficientes. Incentivos para a indústria são igualmente importantes. Propostas como reduções fiscais para empresas que investem em tecnologias de IA sustentáveis e a disponibilização de linhas de financiamento específicas podem estimular o setor privado a adotar práticas de energia inteligente. Além disso, parcerias público-privadas podem acelerar a implementação dessas tecnologias, beneficiando a economia e a sociedade brasileira.

A IA, por seu imenso potencial de transformação, não pode mais ser concebida sem a consideração de seu impacto energético. A ideia de "energia inteligente" não é apenas uma questão técnica, mas uma necessidade ética e econômica para o futuro do Brasil e do mundo. Estamos diante de uma encruzilhada: continuar priorizando apenas o desempenho a qualquer custo ou reimaginar o futuro da tecnologia com um olhar voltado à sustentabilidade.

No Brasil, onde desafios socioambientais são críticos, o conceito de energia inteligente deve ser abraçado com entusiasmo. Um país que já demonstrou capacidade de inovação em setores como energia renovável e agricultura sustentável, agora tem a oportunidade de liderar também na revolução verde da IA. Mas isso requer a união de forças: a comunidade científica, a indústria e o governo precisam caminhar juntos para implementar soluções que equilibrem inovação e responsabilidade. 

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Figura 2. Presidente Lula lançando o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial na 5a Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia, no dia 30 de julho de 2024, em Brasília (Foto: Marcelo Camargo).

O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (ver Figura 2) é uma plataforma perfeita para iniciar essa transição. Políticas que incentivem a pesquisa em algoritmos energeticamente eficientes, junto com o desenvolvimento de hardware verde, não só reduzirão nosso impacto ambiental, mas também promoverão a soberania tecnológica do país. É hora de agir com determinação, incorporando a energia inteligente nas diretrizes nacionais e garantindo que a IA não seja apenas poderosa, mas também sustentável.

Afinal, o futuro da inteligência artificial não é só sobre sistemas inteligentes, mas sobre um uso inteligente da energia que os sustenta. E, nesse futuro, o Brasil pode ser protagonista. 

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Referências

[1] G. E. Moore, "Cramming More Components Onto Integrated Circuits," in Proceedings of the IEEE, vol. 86, no. 1, pp. 82-85, Jan. 1998, doi: 10.1109/JPROC.1998.658762.

[2] Charles E. Leiserson et al., ”There’s plenty of room at the Top: What will drive computer performance after Moore’s law?” Science 368, 2020. DOI:10.1126/science.aam9744.

[3] John L. Hennessy and David A. Patterson. 2019. “A new golden age for computer architecture”. Commun. ACM 62, 2 (February 2019), 48–60. https://doi.org/10.1145/3282307.

[4] David Patterson, et al. 2021. “Carbon Emissions and Large Neural Network Training”. https://arxiv.org/pdf/2104.10350.

[5] Colin Raffel, et al. 2020. “Exploring the Limits of Transfer Learning with a Unified Text-to-Text Transformer”. Journal of Machine Learning Research, 21(140), 1-67.

[6]
Daniel Adiwardana, et al. 2020. “Towards a Human-like Open-Domain Chatbot”.

[7] Dmitry Lepikhin, et al. 2020. GShard: Scaling Giant Models with Conditional Computation and Automatic Sharding.

[8] William Fedus, et al. 2022. “Switch Transformers: Scaling to Trillion Parameter Models with Simple and Efficient Sparsity”.

[9] Tom B. Brown, et al. 2020. “Language Models are Few-Shot Learners”.

[10]
G. S. Nikolić, et al., "A Survey of Three Types of Processing Units: CPU, GPU and TPU," 2022 57th International Scientific Conference on Information, Communication and Energy Systems and Technologies (ICEST), Ohrid, North Macedonia, 2022, pp. 1-6, doi: 10.1109/ICEST55168.2022.9828625.

[11] D. Patterson et al., "The Carbon Footprint of Machine Learning Training Will Plateau, Then Shrink," in Computer, vol. 55, no. 7, pp. 18-28, July 2022, doi: 10.1109/MC.2022.3148714.

[12] de Vries, A. (2023). “The growing energy footprint of artificial intelligence”. Joule, 7(10), 2191–2194. doi:10.1016/j.joule.2023.09.004.

[13] Blalock, D., Gonzalez Ortiz, J. J., Frankle, J., & Guttag, J. (2020). “What is the state of neural network pruning?” Proceedings of machine learning and systems, 2, 129-146.

[14] Hubara, I., Courbariaux, M., Soudry, D., El-Yaniv, R., & Bengio, Y. (2018). “Quantized neural networks: Training neural networks with low precision weights and activations.” Journal of Machine Learning Research, 18(187), 1-30.

[15] Gou, J., Yu, B., Maybank, S. J., & Tao, D. (2021). “Knowledge distillation: A survey. International Journal of Computer Vision”, 129(6), 1789-1819.

[16] Geoffrey Hinton, Oriol Vinyals, & Jeffrey Dean (2015). “Distilling the Knowledge in a Neural Network.” In NIPS Deep Learning and Representation Learning Workshop.

[17] Jonathan Frankle, & Michael Carbin (2019). “The Lottery Ticket Hypothesis: Finding Sparse, Trainable Neural Networks.” In the International Conference on Learning Representations.

[18] Ren, P., Xiao, Y., Chang, X., Huang, P. Y., Li, Z., Chen, X., & Wang, X. (2021). “A comprehensive survey of neural architecture search: Challenges and solutions.” ACM Computing Surveys (CSUR), 54(4), 1-34.

[19] Sebastian, A., Le Gallo, M., Khaddam-Aljameh, R. et al. Memory devices and applications for in-memory computing. Nat. Nanotechnol. 15, 529–544 (2020). https://doi.org/10.1038/s41565-020-0655-z.

[20] M. Horowitz, “1.1 Computing’s energy problem (and what we can do about it),” in 2014 IEEE International Solid-State Circuits Conference Digest of Technical Papers (ISSCC). San Francisco, CA, USA: IEEE, 2014, pp. 10–14.

[21] Siddhant Garg, & Goutham Ramakrishnan. (2020). Advances in Quantum Deep Learning: An Overview. 

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Resumo

Meu nome é Matheus Farias, sou estudante de doutorado em Harvard, e aqui compartilho coisas sobre mim.

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